quarta-feira

Dom Fuas Roupinho e o Castelo de Torres Vedras




por João Aníbal Henriques

Situado em plenas Linhas de Torres, conjunto de fortificações montado para proteger Lisboa durante a denominada Guerra Peninsular, o Castelo de Torres Vedras é uma das mais interessantes peças patrimoniais de Portugal.

Com origem marcada pela chegada dos Romanos, há mais de 2000 anos, a ocupação da colina onde a fortificação se situa representa um passo significativo na definição do fluxo territorial daquela zona. Aproveitando a topografia natural do local, altaneira relativamente ao espaço onde se viria a espraiar a cidade, o castelo define-se na paisagem, apresentando características que lhe advêm de uma história longa e pouco linear.

Do tempo dos romanos, quando um certo clima de paz imperava nesta região, são certamente as duas cisternas existentes dentro do espaço fortificado, não se sabendo ainda se existiriam panos de muralhas a envolver estes equipamentos. Sabe-se, no entanto, que durante a ocupação árabe terá sido construído o conjunto de muralhas que lhe concedeu a forma actual, muralhas essas que foram sucessivamente destruídas e reconstruídas devido a ataques, cataclismos naturais e necessidades práticas de adaptação da vida das comunidades que por ali habitaram.

De facto, a cidade de Torres Vedras foi conquistada por D. Afonso Henriques, em 1148, logo após a conquista de Santarém. O primeiro Rei de Portugal tê-la-á entregue a D. Fernão Gonçalves Churrichão, que ficou conhecido na História como Dom Fuas Roupinho, que reorganizou o espaço e reconstruiu as antigas muralhas.




O lendário nobre Português, de quem se conhece muito pouco a biografia, seria certamente um dos mais próximos companheiros do Rei conquistador e terá estado com ele nos primeiros passos da formação da Nacionalidade. Pensa-se ainda, pela forma como organizou a sua vida pública, que seria Cavaleiro Templário e que terá sido nessa condição que colaborou com o exército lusitano no processo de reconquista Cristã da Península Ibérica.

Dom Fuas Roupinho terá sido também o protagonista do chamado “Milagre da Nazaré”. Quando andava a caçar montado no seu cavalo ao longo da costa Oeste de Portugal, o fidalgo ter-se-á entusiasmado com um veado e perdeu completamente a noção do perigo que está associado àquele espaço de falésias. Num laivo de desespero, ao sentir-se condenado a cair pela arriba abaixo, terá apelado a Nossa Senhora em oração e em resposta Ela terá travado o cavalo já mesmo no limite da escarpa, salvando o nobre português de uma morte certa. Agradecido pela graça que lhe foi concedida, Dom Fuas Roupinho mandou erguer no local a Capela da Memória e, quando se preparava para iniciar as obras de construção do altar, os operários ter-se-ão deparado com uma antiga arca contendo as relíquias de São Brás e de São Bartolomeu e uma imagem de Nossa Senhora sentada num banco a amamentar o seu filho Jesus.

O impacto desta descoberta, principalmente devido ao facto de a imagem ter sido identificada como uma das mais antigas imagens da Virgem Maria, transportada até ao actual território Português algures no início do Século V, terá sido de tal forma grande que diversos monarcas Portugueses terão peregrinado até à Nazaré, mandando melhorar sucessivamente as edificação originais de Dom Fuas Roupinho e contribuído para o rápido alastramento da devoção ao Sítio da Nazaré.




Em Torres Vedras, depois de sofrer vários ataques por parte das forças muçulmanas, o castelo, depois das campanhas de consolidação levadas a cabo pelo senhor, terá conseguido sempre repelir o inimigo, sublinhando assim a sua importância no contexto da formação da própria Nacionalidade. Dom Dinis e posteriormente Dom Fernando, em linha com o que fizeram noutras cidades com importância para a defesa de Portugal, terão mandado efectuar obras de alargamento das muralhas de Torres Vedras, configurando o castelo com as mais modernas tecnologias de guerra que existiam na sua época.

Ao longo da sua história, muitos foram os episódios extraordinários que por ali se passaram. Mas dos mais importantes terá sido certamente o facto de ter tomado partido pela forças de Dona Beatriz, durante a crise de 1383-85, facto que levou o exército de Dom João I a atacar a cidade de forma a garantir a sua posse para a Coroa Portuguesa. Depois dessa vitória, o monarca terá escolhido precisamente o castelo como seu local de residência temporária, tendo sido dali que emitiu grande parte das ordens que tornaram possível o nascimento do Portugal moderno. Na “Crónica de Dom João I”, da autoria de Fernão Lopes, o cronista descreve o Castelo de Torres Vedras como sendo uma perfeita fortificação natural, dado que aproveita a topografia e o declive natural do terreno, complementados com as muralhas construídas, tornando-se um espaço quase totalmente inexpugnável: "Este lugar de Torres Vedras é uma fortaleza assentada em cima duma formação mota, a qual a natureza criou em tão ordenada igualdade como se a não fosse feita, artificialmente; a vila com a sua cerca a redor do monte, e na maior alteza dele está o castelo".




Do período Manuelino, quando Torres Vedras recebeu o seu segundo Foral, serão datadas as obras de modernização dos panos defensivos, bem como a porta de entrada no castelo, em forma ogival muito marcante e adornada com a esfera armilar, as armas de Portugal e a cruz da Ordem de Cristo.

Digno de uma nota especial, não só pelo facto de ser ilustrativa da importância estratégica da Cidade de Torres Vedras no contexto Nacional, como também por consolidar a sua relação próxima com os principais mentores do chamado espírito messiânico de Portugal, é também a sua conquista, em 1589, em pleno período filipino, pelas forças apoiantes de El-Rei D. António, conhecido por Prior do Crato. O Rei Português, com o apoio de forças Britânicas, terá desembarcado em Peniche com o intuito de reconquistar Lisboa para a Causa Nacional. Chegado a Torres Vedras já de noite, o monarca ter-se-á instalado no castelo, ordenando aos seus soldados que não se fizessem quaisquer saques junto da população. Estas, no entanto, dado o visível abandono da cidade, que se encontrava praticamente deserta, acabaram por beber bastante vinho, facto que, segundos as crónicas de então, terão provocado várias doenças e mesma a morte a alguns dos soldados sitiantes. O exército Português terá sido derrotado no dia seguinte, mercê do péssimo estado de saúde dos seus homens, quando o Senhor Dom António se dirigia à cidade de Lisboa. A Cidade de Torres Vedras foi então reconquistada sem esforço pelas forças fiéis aos Espanhóis.




Depois da destruição massiva provocada pelo grande terramoto de 1755, que fez ruir grande parte dos principais troços de muralha, o castelo de Torres Vedras só volta a ver o seu esplendor recuperado precisamente durante a já mencionada Guerra Peninsular, quando foi integrado nas chamadas Linhas de Torres e representou importante papel na defesa da capital contra os ataques dos exércitos franceses.

Durante os Séculos XIX e XX o castelo entrou na posse da autarquia e foi sofrendo várias obras de conservação. Hoje, mantendo o seu carácter altaneiro sobre a paisagem formada pelo casario torreense, faz jus à sua fama de inexpugnável, ostentando as características ameias ali colocadas pela Direcção Geral do Património nos idos dos anos 40.




Torres Vedras, ou sejam, as torres velhas do antiquíssimo castelo romano que dão corpo ao seu topónimo, é uma cidade que vale a pena visitar. Porque para além do seu castelo e demais peças extraordinárias de património, mantém bem viva a sua ligação umbilical à (sempre difícil) demanda de Fé que a Ordem de Cristo foi capaz de consubstanciar.

segunda-feira

A Capela de São Sebastião em Cascais




por João Aníbal Henriques

Passaram-se muitos meses desde que o temporal do Outono de 2015 destruiu o cruzeiro, o alpendre e o adro da Capela de São Sebastião, em Cascais. Mas, finalmente, foram efectuadas as obras de recuperação e reposta a dignidade daquela importante peça do património cascalense.

A Capela de São Sebastião, construída provavelmente em 1628, atendendo à inscrição existente na base do seu cruzeiro, possui um interessante conjunto azulejar cujas origens dispersas não se conhecem com exactidão.

A sua localização, fora da localidade e já muito perto da Enseada de Santa Marta, terá sido determinante para a sua formulação arquitectónica simples, em estilo dito “chão” e para as suas origens eminentemente ruralizantes. Situada originalmente na cerca do antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), seria certamente posto avançado de oração e recolhimento daquele importante núcleo religioso da Vila de Cascais.




De acordo com alguns autores, serão do antigo convento, que foi construído em 1594 por D. António de Castro, então Senhor de Cascais e pela sua mulher D. Inês Pimentel, alguns dos painéis de azulejos que hoje se podem ver na capela e nas zonas envolventes. O mais importante, hoje colocado de forma cenicamente impactante no jardim construído no local pelos Condes de Castro Guimarães, é precisamente a “Procissão Alquímica” em que Nossa Senhora é transportada aos céus numa imensa carruagem inserida num cortejo do qual fazem parte algumas das mais importantes figuras da imagética transcendental da Portugalidade Sebástica.

O certo é que quer na figura “Civitates Urbius Terrarum” da autoria de Georgius Branius, de 1572, quer na planta geral da Vila de Cascais, datada de 1594 e guardada no Arquivo Geral de Simancas, a pequena capela surge expressamente representada, sendo certo, por esse motivo, que já nessa altura fazia parte do património religioso da localidade.




Na parede do adro, com datação provável dos finais do Século XVII, e correspondendo a uma das campanhas de obras de remodelação que o edifício terá sofrido ao longo da sua história, existe um painel azulejar polícromo dedicado ao Santíssimo Sacramento e, como não poderia deixar de ser numa peça de património de índole rural, à Imaculada Conceição da Virgem Maria. Uma vez mais, como é evidente, cerca de dois séculos antes de o Papa Pio IX, através da bula Inneffabilis Deus, ter solenemente definido a Imaculada Conceição como dogma, em linha com o que acontece com as principais orientações cultuais no Portugal de então e, especialmente, com as ancestrais tradições religiosas existentes no Concelho de Cascais.

O orago Sebastianista da capela, apelando ao supremo poder de Deus perante os homens e à permanente necessidade destes de tentarem impor a sua vontade, recupera também ele os laivos dessa paulatina degeneração dos cultos mais antigos das populações locais que, depois de Cristianizados, acabam por integrar-se de forma definitiva no conjunto de pressupostos sagrados que dão forma à Fé local.



A recuperação da Capela de São Sebastião, para além de um importante contributo para a consolidação da vocação turística municipal, que depende da existência de uma oferta significante que concretize a Região do Estoril como um destino turístico de excepção no contexto europeu, significa ainda o assumir da Identidade Cascalense, assente num imaginário colectivo na qual as memórias físicas se cruzam quase sempre com os vestígios materiais de gerações ancestrais.

É, por isso, uma boa notícia para a Nossa Terra!

Pax Júlia e o Castelo de Beja




por João Aníbal Henriques

São muito raras as cidades, sejam elas situadas no actual território Português ou fora dele, que podem orgulhar-se de ostentar um topónimo tão significativo como Beja. O actual nome da cidade, recuperando o topónimo ancestral (provavelmente pré-histórico) do local, deriva da palavra baja, ou seja, lama ou lodo, trazendo à memória a fertilidade excepcional dos terrenos agrícolas que envolvem a cidade. Mas, durante o processo de romanização, iniciado provavelmente no primeiro século antes de Cristo, adquiriu a designação latina de Pax Julia. O pax reverte para o processo de pacificação das populações célticas que foram invadidas pelos romanos, e o epíteto Julia tem a ver com o nome do Imperador que deu forma a esse processo de paz: Júlio César.

Beja é, por isso, cidade simultaneamente de paz e de fertilidade, ou seja, tem tudo aquilo de que o Ser Humano necessita para viver bem e usufruir da sua vida! A planície alentejana, dourada pelo restolho quente que dá forma e corpo ao ciclo agrícola, perpetua no tempo os valores antigos de gerações e gerações de Portugueses que se vão substituindo umas às outras neste espaço imenso.

E a História de Beja é longa e profícua. Inicia-se provavelmente durante a pré-História, como o indicam os muitos vestígios arqueológicos existentes nas redondezas, e afirma-se de forma peremptória durante o calcolítico quando ali foi construído um povoado fortificado que ocupava o espaço onde hoje se situa o castelo.



Quanto a este, altaneiro a partir das suas muralhas antigas, é produto da evolução dos tempos e das necessidades pelas quais foram passando os muitos pacenses que foram habitando o lugar. Se as primeiras pedras foram colocadas ainda antes da História, tendo-se perdido o seu rasto nos complicados repositórios da memória popular, certo é que os laivos da fortificação mais resistente serão de origem romana. André de Resende, o historiador quinhentista de Évora, assegura, embora sem fontes fidedignas que o atestem, que o local onde hoje se situa o castelo de Beja foi outrora ocupado por um oppidum romano, ou seja, uma fortificação de carácter simples e planta circular, cuja principal função seria a de proteger aqueles que governavam a cidade.

O próprio Júlio César, cumulado de glória por ter conseguido conquistar os anteriores habitantes do local, subjugando-os pela força do seu exército mas também pelo carácter imperioso da cultura que o Império Romano representava, terá estado ali para formalizar a paz que conseguira assegurar. O período romano, foi assim uma época de grande prosperidade para a cidade, que foi simultaneamente sede de convento – o Conventus Pacencis – e sede de uma das chancelarias da Lusitânia. Por ali passava uma das principais vias romanas, que permitia a ligação directa à capital do Império, corporizando um impulso urbanístico cujos vestígios são ainda hoje visíveis um pouco por toda a cidade.



O declínio do Império Romano e a sua progressiva desagregação, sendo sinónimo de uma diminuição paulatina do poder detido pelos invasores, representou também ele o início de um período de maior instabilidade no actual território alentejano e, por extensão, na própria cidade de Pax Julia. Os ataques dos bárbaros, sistemáticos e sucessivos ao longo de vários séculos, traduziram-se em várias conquistas e reconquistas que, como facilmente se percebe, significaram também saques e destruição, delapidando as muitas riquezas que existiam na cidade. Será porventura dessa época o período de maior destruição das muralhas do castelo. Sem tempo nem estabilidade para serem reconstruídas, o processo natural de erosão das mesmas e a incapacidade de se proceder a obras de reconstrução, gerou um processo de ruína acentuado, do qual não escaparam as necessidades práticas e quotidianas de pedras para utilização noutros equipamentos e em casas que foram sendo edificadas. É ainda hoje muito fácil encontrar nas ruas de Beja, casas e muros onde são notórias as grandes pedras retiradas da anterior fortificação da cidade e que, século após século, foram dando forma à urbe que hoje ali encontramos.

Já na idade média, durante o domínio árabe, foi Beja novamente retransformada numa das mais importantes cidades do Alentejo. Os ocupantes muçulmanos, ali chegados no ano de 711, propuseram-se recuperar o traçado urbano antigo e é dessa época a transição do topónimo romano – Pax Julia – para a ancestral Baja. No entanto, quer pelas guerras internas, quer possivelmente pelas alteração dos eixos estratégicos dentro do território, não voltou Beja a recuperar a grandiosidade de outros tempos.

As notícias mais recentes na História da Cidade e do seu castelo são assim do século XII, quando Fernão Gonçalves, chefiando um grupo de populares oriundos de Santarém, ataca a cidade de surpresa alcançando uma vitória retumbante. Embora tivesse sido sol de pouca dura, porque logo depois os inimigos muçulmanos conseguiram voltar a recuperar a cidade, o certo é que até este primeiro esforço de reconquista mostra bem o estado lastimoso em que Beja se encontrava. Um grupo mal armado e mal preparado, naturalmente motivado pela possibilidade do saque a que a vitória do seu ataque daria direito, avança de forma amadora e despreparada sobre as velhas muralhas e facilmente as consegue conquistar.

O regresso ao controle cristão não está devidamente documentado, mas um estudo comparativo com o que aconteceu nas redondezas, permite supor que Beja terá regressado à Coroa Portuguesa algures entre 1232 e 1234, dado terem sido estas as datas em que tal processo aconteceu com as vizinhas cidades de Moura, Serpa e Aljustrel. Mas o seu velho castelo, destruído por sucessivos séculos de ataques e de abandono, só virá a conhecer obras de recuperação com o Rei Dom Afonso III que em 1234 atribuiu o foral à cidade.



O Rei Dom Dinis, depois de confirmar o foral inicial, dedicou-se também à reconstrução do castelo, sendo da sua responsabilidade a generalidade dos amuralhamentos que ali hoje vemos. Foi também ele quem, por necessidades práticas associadas à consolidação da fronteira Nacional, mandou edificar a torre de menagem que é hoje um símbolo de Beja. Com cerca de 40 metros de altura, o que faz dela a mais alta de Portugal, foi concebida de forma similar àquela que existe no Castelo de Estremoz, tendo sido concluída provavelmente durante o reinado de D. João I, o fundador da Dinastia de Avis, à qual Beja se manteve firmemente fiel durante o conturbado processo político de 1383-1385.

Depois deste período, novamente no Século XVI se realizam obras no castelo, desta vez para o adaptar às modernas exigências técnicas da guerra, que já não se compadecia com a formulação eminentemente medieval da velha fortificação. Apesar deste esforço modernizativo, Beja foi completamente destruída pelas tropas napoleónicas durante as invasões francesas, tendo depois disso mantido o seu carácter humilde de cidade de província, estatuto que manteve até ao final da primeira metade do Século XX.




A partir daí, fruto de uma grande aposta do Estado, Beja conheceu um novo período de crescimento. Viu construídas várias escolas e um grande hospital, tendo recuperado alguma das suas antiga pujança. Para surpresa de muitos, ali se construiu um aeroporto internacional, nos idos de 2011, que apesar de não apresentar movimento (!?) é hoje o ex-libris das modernas obras públicas na cidade!

Mantendo nas suas armas municipais a figura do touro, recuperado da velha lenda que nos conta a forma como Beja conseguiu matar uma cobra venenosa que aterrorizava os habitantes da cidade, a urbe é hoje um símbolo muito firme da força e da perseverança que sempre caracterizou as suas gentes, sendo capaz de se afirmar como um espaço de excepcional importância para compreender Portugal e para perceber as origens da identidade Portuguesa.

A paz que a cidade ostenta, cobrindo de glória os muitos motivos de interesse para uma visita e a inesgotável fonte de História e de história que a cada canto e recanto representam, são marca indelével de um sentido de Portugalidade que é urgente compreender.

terça-feira

A Capela de Nossa Senhora dos Remédios em Viseu



por João Aníbal Henriques

As memórias antigas de Viseu estão ainda hoje profundamente ligadas ao legado deixado pelo Infante Dom Henrique. O navegador visionário, Mestre da Ordem de Cristo, testemunha o carácter ancestral da ligação de Viseu ao Mundo, numa atitude cosmopolita que contrasta de for evidente com a práxis quotidiana da cidade ao longo dos últimos séculos.

O ilustre infante, senhor do Ducado de Viseu, geria os seus domínios a partir do paço que possuía junto à Porta do Soar, do qual terá feito parte, e perto do sítio onde actualmente se encontra a singela Capela de Nossa Senhora dos Remédios.




Certamente por mera casualidade, pois o templo foi construído somente em 1742, a capela apresenta uma curiosa planta octogonal, em linha com o que terá sido a planta principal dos templos erguidos pela ordem que o Infante dirigia, complementada com um altar de talha polícroma composta a partir de um conjunto de índole tardo-barroca.

A capela, que terá vindo substituir uma anterior dedicada a São Sebastião e datada do Século XVI, ocupa posição estratégica no seio do eixo de protecção da cidade. A porta do Soar, também conhecida como Arco dos Melos, em homenagem à família cujo solar se encontrava a ela adossado (actual Hotel Palácio dos Melos), era uma das principais portas de entrada na cidade e São Sebastião, a quem o templo tinha sido dedicado, tinha como função principal proteger o espaço mais importante de Viseu da peste e de outras enfermidades, dado ser ele o padroeiro protector contra esse tipo de males. Por isso, mais do que por qualquer motivação de âmbito sagrado, ocupará a actual capela a posição em que se encontra no Largo do Pinto Gata, que era a antiga Praça da Erva.




Construída à custa das esmolas dos devotos, terá a iniciativa da sua edificação partido de um grupo de moradores da Praça da Erva, com a motivação de prestarem homenagem à sua padroeira. Em 1739, o então Cónego Bernardo Pereira de Melo, em resposta à pretensão dos moradores, assina uma escritura de doação de um conjunto de pequenas casas com o intuito de aí se edificar o novo templo. As obras foram conduzidas pelos pedreiros minhotos Manuel Lourenço e Manuel Ribeiro, tendo sido necessário ao Cabido da Sé a oferta de vários apoios dado a escassez das esmolas que os moradores conseguiram pedir.

O espólio, simples tal como a formulação do próprio templo, veio da Capela de São Lázaro, que tinha sido demolida em 1816, por iniciativa da Confraria de Nossa Senhora dos Remédio, que tinha sido institucionalizada no ano de 1747. Depois de passar para as mãos da família Melo, que dela se apossou em meados do Século XIX, a capela volta ao uso público já no Século XX depois de ter sido arrematada em leilão pela edilidade de então. 

Guardiã da memória histórica da Cidade de Viseu, ali colocada como sentinela firme que testemunha a entrada e saída por aquela que é uma das mais importantes portas do burgo, a Capela de Nossa Senhora dos Remédios esconde aos olhos menos atentos as memórias velhas do Infante Dom Henrique de Portugal que, na sua planta octogonal, esconde os desígnios mais profundos da Portugalidade  e o ensejo de trazer novos mundos ao Mundo.

Enfim… a Capela de Nossa Senhora dos Remédios, em Viseu, é testemunho vivo da própria Portugalidade.  

A Ermida de São Sebastião e as Grutas Mouras do Alvito




por João Aníbal Henriques

A origem mourisca da cultura Portuguesa, assente na recuperação de valores estéticos, artísticos e mesmo religiosos dos ocupantes maometanos que estiveram na Península Ibérica a partir do ano de 711, é ainda hoje visível em usos e costumes um pouco por todo o País.

No Alentejo, que durante mais tempo sentiu a influência árabe, grande parte das localidades, na sua vertente de distribuição urbanística e também na componente estética das suas casas, apresenta características desse período, integrando elementos que foram criados nessa época e fazendo o aproveitamento de técnicas de construção que os mouros delinearam.

No Alvito, no coração da província Alentejana, é precisamente a memória moura que determina o carácter extraordinário da povoação. Ele vive-se e sente-se em cada canto e recanto, numa profusa amálgama de pequenos detalhes que deslumbram quem ali chega.

No Rossio de São Sebastião, aproveitando o topónimo que o consagra, ergue-se a velha ermida com o mesmo nome e, para espanto de todos aqueles que questionam os locais sobre o que é a porta enorme que existe nas suas traseiras, uma autêntica “fábrica de mós”.




A ermida de cunho mudéjar bem definido, foi construída algures no Século XVI, sendo dessa data as primeiras referências documentais que se conhecem, provavelmente aproveitando quaisquer vestígios mais antigos que tenham subsistido do período de domínio muçulmano. Inserida no gótico final alentejano, que procura o deslumbramento de quem a visita, a ermida é um edifício simples, como o são quase todos aqueles que a pobreza que se vivia no Alentejo nessa época determinava, mas possui no seu interior um conjunto de inestimável valor de pintura mural, em forma de frescos, pintados provavelmente por José Escobar em 1611.

A dedicação a São Sebastião, cruzada com a localização na entrada da localidade, dever-se-á ao carácter protector deste santo relativamente às pestes. Com a colocação neste local, os seus construtores terão pensado que conseguiriam travar a entrada da peste no Alvito, ao mesmo tempo que recriavam uma barreira perante possíveis invasões que pudessem chegar daquele lado.

Mas o mais interessante, ainda para mais com uma datação que precede bastante a construção da própria ermida, é a existência, nas traseiras da mesma, de um conjunto vastíssimo de grutas artificiais, denominadas oficialmente como “Grutas do Rossio”. Estas galerias, escavadas na rocha-mãe que suporta os alicerces da própria ermida, surgem na documentação como sendo antigas minas de exploração de calcário no Século XIII. Mas notas documentais indirectas, que foram encontradas recentemente, apontam para a utilização dos túneis como saídas alternativas do velho castelo mouro e dos demais edifícios importantes existentes na velha vila alentejana.

A tradição popular, ainda hoje transmitida pelos habitantes do local a quem os visita, é que aquele é um espaço assombrado pelos mouros, sendo autênticos viveiros onde cresciam mós!




Mas nas crónicas templárias medievais, cujo conteúdo se dedica sobretudo à reconquista das terras alentejanas, o sistema de túneis do Alvito é explicado como sendo um conjunto de pedreiras onde os mouros exploravam a pedra calcária, tendo sido escavadas por mão-de-obra escravizada durante as muitas batalhas que aconteceram na região. 

O certo é que entre 1190 e 1191, depois de o Rei Dom Sancho I ter chegado a Silves, no Algarve, o contra-ataque mouro redobrou a sua força. Sob a liderança de Ya’qub Al-Mansur, o exército árabe terá retomado o controle de vastas áreas na região do Alentejo interior, das quais fazia parte a actual Vila de Alvito, transformando o seu castelo no ponto de referência na defesa das suas fronteiras. Em virtude dessa decisão, terão sido canalizados para ali os muitos escravos Cristãos capturados durante as batalhas, tendo-lhes sido dada a incumbência de escavar as minas e de criar os túneis que hoje conhecemos.

D. Frei Pedro Álvares, oitavo Mestre do Templo em Portugal, terá então liderado um ataque às posições mouras sediadas no Alvito, tendo conseguido ludibriar o inimigo e libertado a totalidade da população escrava que estava encerrada naqueles espaços subterrâneos.

Por isso, é ainda hoje cognominado como o “Herói do Alvito”, mantendo aquele espaço o cunho indestrutível de bastião templário de Portugal!

segunda-feira

A Ermida de Nossa Senhora do Pranto na Chamusca




por João Aníbal Henriques

Se existe terra onde a tradição ribatejana impera, é na Chamusca que isso mais se sente. Localizada junto à margem do Rio Tejo, do qual depende de forma directa a vila tem uma história longa de velhas práticas agrícolas, nas quais o gado assume especial importância.

Talvez por isso, num contexto em que a importância da terra se impõe, a dicotomia é grande e concretiza-se na diferença marcante entre a arquitectura chã das suas habitações mais humildes e a opulência grandiosa das velhas casas senhoriais que davam guarita às famílias mais importantes ligadas à posse dos terrenos de cultivo existentes nas redondezas. A paisagem chamusquense é assim de casario branco em correnteza, dando lugar, aqui e li, ao surgimento das habitações veneráveis de uns quantos.

A dependência próxima do rio e dos ciclos agrícolas que derivam do mesmo, sente-se em cada esquina, até porque as margens do Tejo são factor de destaque na paisagem, sendo que o verde da primeira linha de água, indicando o carácter fértil daquele lugar, se mantém suficientemente afastado da localidade para precaver possíveis cheias quando as águas sobrem e galgam as margens saindo do leito.




Um dos mais bonitos monumentos da Chamusca, situado no topo de uma das colinas adjacentes, é a Ermida de Nossa Senhora do Pranto. Com uma vista única sobre a Vila da Chamusca e sobre a lezíria, a singela ermida integra-se na tipologia simples dos espaços rurais onde foi construída, integrando um conjunto em que se destaca um enorme cruzeiro calcário e um pequeno adro ladrilhado de onde é possível perceber bem a dinâmica histórica do local onde se insere.

Apesar de a sua origem remontar ao Século XVII, sendo dessa altura a capela de São José que a integra, o corpo principal é muito mais recente. Para além das obras de conservação e adaptação que foi sofrendo, e que lhe conferiram a imagem que hoje tem, a ermida foi ainda integrando elementos decorativos que possivelmente terão resultado de aproveitamentos oriundos de espaços análogos que eventualmente tenham desaparecido nas redondezas. É o caso do velho cruzeiro que está incrustado na sua parede, e que terá precedido, junto ao adro, o actualmente existente, alguns retábulos, bem como alguns dos maravilhosos painéis de azulejos que por dentro a revestem.

A Ermida do Pranto, numa devoção que conta com quase 200 anos de história, está intimamente ligada a um dos acontecimentos mais marcantes da História recente de Portugal: as invasões francesas. Reza a lenda que quando os exércitos napoleónicos chegaram ao Ribatejo, aquartelando-se na Golegã e preparando um assalto às terras da Chamusca, um conjunto de populares se refugiou na velhinha Capela de São José, no cimo do monte, para daí verem com mais cuidado o avanço das tropas na outra margem do rio. Apavorados com o que estava a acontecer, e em pranto por saberem quais seriam as consequências que iriam sofrer caso os Franceses chegassem à sua terra, os Chamusquenses terão rezado a Nossa Senhora e solicitado a sua intercessão para os salvar do desastre. Prometeram ainda, caso se salvassem deste acontecimento nefasto, a construção de uma nova capela em honra da Senhora do Pranto.




Como que por milagre, quando os Franceses se preparavam para atravessar o rio, as águas terão subido subitamente impedindo a travessia e salvado a Chamusca da mesma destruição que outras terras conheceram. Os Chamusquenses, gratos a Nossa Senhora, terão então remodelado a Capela de São José, construindo em seu torno a actual Ermida do Pranto!...

Ainda existe, guardada na sacristia da velha Capela de São José, uma das balas que os Franceses dispararam contra a Chamusca em desespero por não conseguirem chegar a ela durante a primeira invasão napoleónica a terras Portuguesas.

Nossa Senhora do Castelo em Coruche




por João Aníbal Henriques

A devoção de Portugal a Nossa Senhora é ancestral e precede até o processo de formação da Nacionalidade. O culto sagrado à Virgem, personificada de diversas formas consoante a designação ritualística a que está inerente, é o fio condutor que unifica pensamentos, gerando um consenso alargado que transforma a Mãe de Deus na verdadeira força motriz que dá forma a Portugal.

Nossa Senhora, mãe de Jesus enquanto Deus vivo na Terra, consolida assim os laivos de sacralidade que acompanham o próprio acto da criação. A diferenciação do Homem das criaturas suas congéneres no mundo animal, faz-se pelo assumir desta capacidade simbólica de interpretar o universo. E Nossa Senhora, hoje padroeira e verdadeira Rainha de Portugal, já era pedra angular da fé daqueles que por aqui vivem, desde tempos anteriores ao próprio nascimento de Jesus Cristo. Num laivo de mistério profundo, apelando aos sentidos que impõem a disciplina à carne, foi a Virgem Ancestral, mãe verdadeira da humanidade, quem determinou os vínculos perenes que mais tarde se transformam na persistente entrega à causa maior da independência do nosso Pais.




Em Coruche, pequena e airosa vila situada nas margens do Rio Sorraia, no Ribatejo, a vinculação a Nossa Senhora surge marcada precisamente pelo processo de formação da Identidade Nacional. De facto, sendo estrategicamente crucial para o controle dos territórios envolventes, bem como essencial por se situar em pleno coração da ubérrima lezíria sorraiana, Coruche conheceu um processo histórico intrincado, marcado por sucessivas lutas de conquistas e reconquistas por parte dos diversos povos que a quiseram controlar.

Em 1166, quando Dom Afonso Henriques a conquista aos Mouros, a pequena vila era defendida por um castelo de composição rudimentar, cuja construção era essencialmente suportada por travejamentos de madeira e tijolo simples. Foi, aliás, o carácter muito precário desta fortificação, que servia basicamente de complemento na linha de defesa marcada pelas fortificações de Santarém e de Montemor-o-Novo, que determinou a sua reconquista pelos maometanos, ocorrida em 1180, o que obrigou o primeiro Rei de Portugal a um esforço redobrado para a colocar definitivamente sob domínio Nacional.

Ainda o Século XII, antes de estar encerrado o processo de Nacionalização de Coruche, a Coroa entrega a vila à Milícia da Ordem de São Bento, em Évora, mais tarde de Avis. Neste processo, cujo fulcro é colocado no cimo da colina onde se erguiam as paredes do velho castelo, assume sempre especial papel o culto Mariano a Nossa Senhora, concretizado a partir da velha ermida que por ali existia. A consolidação das fronteiras e a definitiva pacificação do território Nacional, determina a perda da importância da fortificação, recentrado todo o perímetro das paredes fortificadas para a componente sagrada do espaço de culto.




Embora se conheça muito pouco daquilo que foi a História antiga de Coruche, sabe-se que a sua importância estratégica foi atravessando as eras, explicando assim a manutenção da sua ocupação humana desde os primórdios da Pré-História. Depois de os Romanos terem estado lá por motivos idênticos, o longo período sob domínio muçulmano terá certamente culminado na criação de um conjunto de espaços de culto, sendo bastante provável que o alto da colina do castelo tenha sido ponto essencial na definição dessa dinâmica religiosa.

Coruche está, aliás, profundamente relacionada com estes processos de mudança e transmutação. A imagem de Nossa Senhora do Castelo, provavelmente de origem oitocentista, apresenta a Virgem Mãe com o seu filho em pé, ao seu lado, ao invés de a apresentar como é normal no resto do País, com o menino ao colo. Diziam os devotos populares de outros tempos, que tal se devia ao carácter muito milagreiros da Santa Mãe, explicando assim a sua importância da definição da própria identidade dos Coruchenses. Nas Memórias Paroquiais do Século XVIII, quando o pároco local apresentava às autoridades o ponto-de-situação em que ficou Coruche depois do grande terramoto de 1755, sublinha esse facto, explicando que todos os devotos que procuraram na imagem de Nossa Senhora do Castelo e nas paredes da sua ermida uma protecção contra o cataclismo, viram as suas casas salvas da ruína em que ficaram as restantes…  




É por isso o milagre, consubstanciado na intervenção de Nossa Senhora do Castelo em defesa dos seus devotos seguidores, o factor principal que permite perceber a importância deste espaço no contexto da devoção mariana Nacional, sendo certo que as especificidades territoriais desta Senhora, muito mais do que à comum definição lendária de aparições sucessivas, se ficam a dever a uma prática reiterada desde a ancestralidade, mostrando uma linha de culto comum que se perde nos laivos antigos de outros tempos.

O culto actual, organizado a partir da Carta-Ordem emitida em 1516 pelo então Mestre da Ordem de Santiago e Avis, D. Jorge de Lencastre, que definia a obrigatoriedade de se organizar uma procissão anual de acção de graças a Nossa Senhora, mistura-se ele próprio com a história extraordinária da enigmática Rainha Santa Isabel, a santa alquimista que teve a capacidade de transmutar a matéria transformando pão em rosas, já que a referida procissão anual decorreu durante muito tempo no dia 4 de Julho, precisamente o dia em que se celebra a Rainha Santa e o seu falecimento em Estremoz. Só mais tarde, quando o dia 15 de Agosto passa a estar consagrado à Assunção de Nossa Senhora, se altera a data da procissão, que passa a realizar-se nesse dia e associada a uma feira anual que animava (anima ainda) a Vila de Coruche.




Ambas as datas, como é evidente, são resquícios profundos de uma religiosidade marcada pela devoção a Nossa Senhora, consubstanciada num e noutro caso em pressupostos que estão muito para além do dogmatismo que é usual noutros lados.

Nossa Senhora do Castelo, a Virgem-Mãe que ainda hoje acompanha em permanência muitos milhares de Coruchenses, é muito mais do que a Mãe de Jesus ou do que a mera Assunção de Nossa Senhora. É marca viva de uma ancestralidade perdida dos biombos dos tempos, marca indelével que suporta a capacidade que Coruche tem de fazer parte da vida de todos os seus filhos e dos filhos deles.

Vale a pena subir ao castelo de Coruche e visitar a ermida da Senhora do Castelo. Porque ali se sente Portugal. 

sexta-feira

Os Potes Mouros das Alcobertas em Rio Maior




por João Aníbal Henriques

Os denominados Potes Mouros, situados na Freguesia de Alcobertas, no Concelho de Rio Maior, são um dos mais extraordinários e enigmáticos sítios arqueológicos do Ribatejo. A estranheza que produzem junto de quem os visita pela primeira vez, resulta do seu enquadramento na paisagem, marcada pelo tom avermelhado do grés onde assentam, mas também pela pouca informação existente sobre tão inesperado local.

Conhecidos um pouco por todo o território Nacional, e normalmente associados a contextos arqueológicos datados do período muçulmano, os Potes das Alcobertas são diferentes por se enquadrarem num conjunto imenso, do qual hoje se conhecem actualmente apenas 35 mas que se sabe que ainda há pouco tempo eram perto de 100, tendo sido progressivamente destruídos devido à utilização do local como pedreira em meados do Século XX.




Sem espólio associado, o que permitiria avançar com datações mais exactas, foram encontrados na década de 60 do século passado e imediatamente despertaram o interesse das comunidades envolventes. Na correspondência camarária associada a este achado, os potes são atribuídos ao período romano, embora sem que tal obedecesse a qualquer espécie de estudo científico e/ou a conclusões preliminares que tivessem sido analisadas nessa época. Pouco tempo depois, o arqueólogo Afonso do Paço chama-lhes pela primeira vez 'silos', apercebendo-se da sua função de armazenamento de cereais, apontando a existência de tampas que teriam como função selar cada um dos recipientes, preservando os grãos da humidade ou da entrada de animais.

É também Afonso do Paço quem, em estudos posteriormente realizados no local, avança com as primeiras teorias relativas à sua morfologia tipicamente de origem muçulmana, ressalvando o facto de se saber que os ditos silos teriam tido utilizados ininterrupta pelo menos até ao Século XV. Mas aponta também, por ser importante na indefinição relativa à cronologia do local, o facto de não ter sido encontrado qualquer espécie de espólio associado, nem tão pouco restos de quaisquer espécies de cereais.



O carácter único do local, com os seus túneis escavados no grés e com a estranha morfologia do espaço envolvente, transformam aquele recanto numa espécie de magnífico cenário de um filme, no qual a memória do local, cruzada com os laivos de uma história que provavelmente recua mais de 1000 anos no tempo, nos oferecem a possibilidade de efectivamente perceber como era a subsistência ancestral no actual território Português.

Os Potes Mouros das Alcobertas, que a Junta de Freguesia local e a Câmara Municipal de Rio Maior recentemente recuperaram, estão hoje transformados num excelente espaço museológico. Os bons acessos e as condições envolventes, são atractivo suficiente para uma visita que vale a pena fazer!


quinta-feira

Nossa Senhora da Peninha em Sintra




por João Aníbal Henriques

Reza a lenda que, algures durante o reinado de Dom João III, uma pastorinha muda e esfomeada nascida na localidade das Almoínhas Velhas (Malveira-da-Serra, Cascais), terá subido à Serra de Sintra com o seu rebanho onde encontrou Nossa Senhora. A figura com a qual falou, respondendo ao seu anseio de alimentos para si e para a sua família, disse-lhe para regressar a casa e abrir uma determinada arca onde encontraria o pão de que necessitava. Correndo de regresso para casa, a pastorinha recuperou a voz e indicou à sua mãe onde encontrar o tão almejado alimento. A velha imagem tosca de Nossa Senhora da Penha, colocada na arca, terá sido então exposta para veneração na velha Capela de São Saturnino, situada a poucos metros do local da aparição. Mas, teimosa, saia subrepticiamente do altar onde a colocavam e reaparecia no cimo dos rochedos situados atrás do templo. Tantas vezes se repetiu a travessura que se construiu em sua honra a capela actual no topo do monte da peninha.

Não se sabendo exactamente quando tudo isto aconteceu, e havendo várias notícias da existência de edifícios que precederam aquele que actualmente ali se encontra, sabe-se, no entanto, que a Capela de Nossa Senhora da Peninha terá sido construída por um tal Pedro da Conceição, que tinha na altura somente 28 anos, e que se encontra sepultado junto ao monumento.




Nas inscrições lapidares de Sintra, vem descrita a indicação que se encontra na sepultura do fundador, dizendo que ali jaz o Ermitão Pedro da Conceição, falecido em 18 de Setembro de 1726, e que pede a todos os que por ali passem um Padre Nosso e uma Avé Maria pela Alma dos seus benfeitores. Numa das paredes do templo, existe uma segunda lápide confirmando a identidade do construtor original e afirmando que a obra foi efectuada em 1690. Sendo muitos e rocambolescos os episódios pelos quais passou o singelo templo Sintriano, o certo é que foi alvo de muitas obras de construção e reconstrução que lhe conferiram o aspecto que hoje conhecemos.

Sabe-se ainda que no final do Século XIX, em 1892, a Peninha é comprada pelo Conde da Almedina que em 1918 a revende a António Augusto Carvalho Monteiro. O Monteiro dos Milhões, como ficou conhecido o construtor da Quinta da Regaleira, situada junto à Vila de Sintra, era na altura um dos mais conhecidos e ricos empresários lisboetas, com investimentos variados na banca de então que, do alto da sua prosperidade, adquire uma visão ecléctica do Mundo e das suas gentes.

Profundamente místico e grande conhecedor de tudo aquilo que dizia respeito ao destino de Portugal, Carvalho Monteiro pauta a sua vida por um conjunto de valores e de princípios que, apesar da distância que o separa do antigo Ermitão Pedro da Conceição, lhe são muito próximos e semelhantes.

Adossado às penhas que sustentam a capela, o proprietário projecta a construção de um palácio onde pretendia passar temporadas em meditação e em recolhimento. Projectado por Júlio da Fonseca em 1920, o palácio fica por acabar mercê da morte de Carvalho Monteiro, tendo posteriormente sido adquirido do advogado José Rangel de Sampaio que concluiu as obras e legou o palácio em testamento à Universidade de Coimbra.




Em 1991, pela importância de 90.000 contos, o imóvel é adquirido pelo Estado Português, através do Serviços de Parques e Conservação da Natureza, que efectuou algumas obras de restauro e conservação.

A Poente da Capela de Nossa Senhora da Peninha, subsiste em forma de ruína avançada, o que resta da velhinha Ermida de São Saturnino, originária do Século XII, e cuja importância em termos patrimoniais contrasta de forma evidente com a incúria em que tem sido deixada.




O conjunto patrimonial da Peninha, composto pela Capela, pelo palácio de Carvalho Monteiro e pela velha Ermida de São Saturnino, está inserido numa das mais impactantes paisagens da Região de Lisboa, abraçando em termos visuais desde a Ponte Sobre o Tejo, em Lisboa,  até ao Cabo da Roca.

A singeleza da lenda, apelando aos sentidos de pureza primordial e fazendo a apologia da pobreza extrema e abnegada, enquadra-se no conjunto ritualístico próprio da Serra de Sintra, numa lógica cruzada de paganismo cristianizado e de apelo constante ao Quinto Império Português. A devoção pela Senhora que concebe, a Senhora da Conceição que tão linearmente devolve à pastorinha das Almoínhas Velhas (ou Almas velhas), a sua voz e lhe mata a fome, é concretizada pelo Ermitão, ou seja, pelo que assume a pobreza como fio condutor da sua vida, Pedro da Conceição, em ligação permanente ao culto ritual antigo.

Na Ermida Medieval, onde o culto é de São Saturnino, a linha orientadora é a mesma, apelando ao eterno retorno e ao culto obscurecido dos Mundos Internos, numa lógica que corre em linha com o útero materno, a Deusa-Mãe primordial, por aqui venerada desde tempos imemoriais.

Enfim… Nossa Senhora da Conceição. 

A Ponte Pênsil D. Maria II e a Tragédia das Barcas no Porto




por João Aníbal Henriques

Quem chega à Ribeira do Porto deslumbra-se de imediato com o impacto extraordinário da paisagem. As duas margens, irmãs na forma como partilham as águas do rio mas apartadas por séculos de rivalidades recíprocas, compõem um cenário digno do melhor filme de Hollywood, no qual as cores e as texturas transmitem de forma muito evidente o peso enorme da suas história e a importância que a cidade invicta sempre teve na própria História de Portugal.

Mas junto à Ponte Dom Luís I, que se impõe na paisagem, existe um pequeno monumento que passa despercebido aos mais desatentos e que é marca indelével de outros tempos e de outras histórias. Tendo ficado como repositório de memória, importa recuperar aquilo que se sabe sobre a antiga Ponte Pênsil D. Maria II, cujos pilares sobrevivem com a velhinha casa do guarda, testemunhando por seu turno a enorme tragédia humana e política que configurou a chamada Ponte das Barcas que ela veio substituir.



Sendo a ligação entre as duas margens do Rio Douro uma preocupação constante e uma necessidade permanente ao longo dos séculos, muitas foram as tentativas de construção de pontes que permitissem fazer a passagem em segurança. Sobretudo desde o final do Século XVIII, quando o transporte das pipas de vinho do Porto se tornou numa actividade verdadeiramente lucrativa e importante, foram sendo construídas sucessivas, embora sempre muito frágeis, pontes de barcas a ligar as duas margens. Utilizando velhas barcaças já fora de uso, que eram ligadas entre si com correntes, os portistas de então criavam soluções que embora fossem pouco duradouras, eram mesmo assim mais acessíveis do que o transporte por barco através das águas do rio.

A última dessas Ponte das Barcas foi inaugurada em 15 de Agosto de 1806 com traço de Carlos Amarante e nela aconteceu uma das maiores tragédias da História de Portugal. Durante a Segunda Invasão Francesa, dirigida pelo Marechal Nicolas Soult, as tropas francesas ocuparam a cidade do Porto e chacinaram a população que, em pânico, acabou por tentar fugir através da ponte que atravessava o rio. A estrutura, muito frágil e desapropriada para aguentar o peso das cerca de 4000 pessoas que tentavam fugir, acabou por perecer, matando nas águas gélidas do Douro milhares de Portugueses.

A tragédia da Ponte das Barcas, marca indissociável da memória colectiva de Portugal e dos Portugueses, transmite em si própria o extremo desespero de um país verdadeiramente abalado pelas alterações políticas que caracterizaram o final do Século XVIII e o início do Século XIX, marginalizado numa Europa que se definia a partir do eixo Londres – Paris e fragilizado pelas sucessivas aventuras políticas em que se havia embrenhado. A morte daquelas 4000 pessoas, contrasta de forma evidente com a vitória de Portugal sobre o exército francês mas denota também a dependência quase eterna relativamente à Coroa Britânica…



A antiga Ponte das Barcas no Douro


Para substituir a Ponte das Barcas, e possivelmente para ajudar a esquecer a imensa tragédia que se havia abatido sobre a cidade, os poderes locais optam então pela construção de uma nova estrutura de carácter mais perene.



Com desenho do Engenheiro Stanislas Bigot, a nova ponte suspensa que ligava ambas as cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia, foi ironicamente construída pela empresa francesa Claranges Lucotte & Cie., tendo sido inaugurada (sem pompa nem circunstância) em Fevereiro de 1843.

Antes de ser substituída, cerca de quarenta e cinco anos depois, pela nova Ponte Dom Luís, foi completamente desmontada, subsistindo somente os ditos pilares de suporte na margem do Porto, bem como a parede-mestra da antiga Casa do Guarda, que tinha como função principal a cobrança das portagens relativas à travessia. 

O Castelo de Mourão no Alentejo




por João Aníbal Henriques

É extremamente impactante a impressão que produz uma primeira visita ao Castelo de Mourão. Por um lado, a inexplicável linha de horizonte, misturando os resquícios antigos da paisagem seca do Alentejo de outros tempos com os panos de água do Grande Lago, que lhe conferem a singeleza subtil de uma frescura imaginária que o corpo não sente. Por outro, o estado de imensa degradação, num laivo que roça os travos amargos do abandono  e da ruína, dando conta do enorme desprezo pelas mais importantes peças da memória e da História de Portugal…

O Castelo de Mourão, cuja actual construção se iniciou em 1343 com traço de Mestre João Afonso e por ordem d’El-Rei Dom Afonso IV, é uma fortificação de cariz militar situada a poucos minutos da raia fronteiriça. É, aliás, esta condição, que representa a sujeição ao clima de permanente instabilidade que resulta da sua inclusão numa zona de fronteira, que determina a sua importância, bem como muitos dos rocambolescos episódios que a constrangeram ao longo do tempo.




Essa proximidade, é também ela determinante para definir os antecedentes da história do local, uma vez que dificilmente se concebe a conflituosidade permanente que existiu neste local desde (pelo menos) a fundação da Nacionalidade, sem que nela tenha existido uma fortificação condigna. Muitas das informações existentes sobre este espaço apontam para a existência de vários momentos de construção anteriores à data apontada, sendo certo que, pela sua localização geograficamente relevante e profundamente simbólica em termos estratégicos, seja razoável aceitar que terá existido por ali alguma construção defensiva pelo menos desde a ocupação muçulmana.

Na primeira Carta de Foral atribuída à vila alentejana, datada de 1226, O Rei Dom Sancho II doa Mourão aos Cavaleiros da Ordem dos Hospitalários precisamente com o intuito expresso de “incentivar o seu povoamento e defesa”. Em linha com esta indicação, fácil se torna perceber a importância militar que o local possuía e a natural decisão de ali construir ou reconstruir um baluarte defensivo que pudesse contribuir para a consolidação da Causa Nacional.




De qualquer forma, existe uma lápide epigrafada colocada na Torre de Menagem, que indica expressamente a data de 1343 para a construção desta estrutura: “ERA DE MIL CCC OITENTA E I ANOS PRIMO DIA DE MARÇO DOM AFONSO O QUARTO REI DE PORTUGAL MANDOU COMEÇAR E FAZER ESTE CASTELO DE MOURÃO E O MESTRE QUE O FAZIA HAVIA NOME JOÃO AFONSO QUAL REI FOI FILHO DO MUI NOBRE REI DOM DENIS E DA RAINHA DONA ISABEL AOS QUAIS DEUS PERDOE O QUAL REI É CASADO COM A RAINHA DONA BEATRIZ E HAVIA POR FILHO HERDEIRO O INFANTE DOM PEDRO”.

Uma das histórias mais interessantes, acontecida pouco tempo antes do início das obras do castelo, decorreu em 1313, quando o Rei Dom Diniz, num esforço hercúleo para consolidar as fronteiras, entrega a Vila de Mourão a Dom Raimundo de Cardona com a indicação expressa de este não construir ali uma fortificação. Terá tal decisão resultado do facto de já existir por lá uma estrutura defensiva suficiente para os projectos reais? Ou terá somente resultado de um pensamento estratégico por parte do Rei, percebendo que era ainda volátil a linha de fronteira e que não convinha estar a construir estruturas que posteriormente pudessem vir a ser utilizadas contra Portugal? Não se sabe ao certo. Mas, como o inesperado quase sempre impera nestas terras de deslumbramento, falta dinheiro ao novo Senhor de Mourão e a opção que este toma, em claro desobedecimento à vontade do Rei, passa pela venda em leilão da vetusta vila raiana. O comprador, um tal Martim Silvestre, natural de Monsaraz, adquire Mourão pela singela importância de 11.000 Libras em 19 de Abril de 1317. Mas poucos dias depois, a 15 de Maio desse mesmo ano, o feliz comprador recebe ordem Real para que lhe revenda a vila pelo mesmo valor pela qual a comprou, determinando que Mourão tem uma importância definitiva na determinação da linha de fronteira da qual dependia a própria independência de Portugal.

Depois de vicissitudes diversas que dão forma ao devir histórico de Mourão, e de diversas intervenções que vão actualizando a componente militar da estrutura defensiva, o castelo vai conhecendo uma progressiva perda da sua importância estratégica, facto que se reforça depois da consolidação da restauração da independência Nacional em 1640. São dessa época a adaptação dos seus panos de muralha às novas exigência da moderna artilharia, e pouco tempo depois, a destruição visível causada pelo grande terramoto de 1755.




Daí até agora, e apesar de continuar a existir um conjunto de vestígios que vale a pena visitar, como a antiga Casa dos Guardas e os antigos Paços do Concelho, para além da velha cisterna que resiste sob os pés dos visitantes, a marca maior do Castelo de Mourão é o abandono e a ruína.

Classificado como Imóvel de Interesse Público em Julho de 1957, só vinte anos depois, em 21 de Junho de 1977, é o castelo doado por escritura pública ao Município de Mourão pelo seu então proprietário Marcos Lopes de Vasconcelos Rosado.

Mas apesar disso, e de obras pontuais efectuadas para reforçar a estrutura e impedir a sua completa ruína, o Castelo de Mourão é hoje pouco mais do que um espectro semi-derruído daquilo que foi noutros tempos. Ressalva especial para o enquadramento cénico que a Barragem do Alqueva lhe trouxe e para a maravilhosa e mística paisagem que o que dele resta impõe a quem o visita.

Que pena Portugal não perceber a importância de um património riquíssimo como este! 

terça-feira

A Capela do Espírito-Santo de Teira e o Castro de São Martinho em Alcobertas




por João Aníbal Henriques

Existem espaços e monumentos de tal maneira simples na sua formulação estética, que dificilmente deixam antever a complexidade que traduzem e a importância que têm no registo histórico ao qual pertencem.

A sua singeleza, normalmente associada à pureza extraordinária das comunidades que os construíram, traduz assim um apelo quase inaudível aos sentidos, obrigando o visitante a um exercício quase onírico para os perceber…

É o que acontece na Freguesia das Alcobertas, no Concelho de Rio Maior, com a singelíssima Capela do Espírito-Santo e, um pouco mais adiante, com o que resta do maltratado Castro chamado de São Martinho.




A capela, simples na sua forma chã e pragmaticamente inserida na tipologia própria da arquitectura de índole religiosa das zonas rurais Portuguesas, integra-se num largo de bonitas proporções no qual assumem especial importância um grande crucifixo construído em 2001, e o painel de azulejos onde consta uma perspectiva do antigo Castro de São Martinho, profundamente marcante na definição sagrada do templo Alcobertense.

Datada do Século XX, a capela vem substituir uma antiga ermida dedicada a São Martinho que existia no topo do monte onde outrora se ergueria o antigo castro neolítico. Tendo lendariamente sido destruída por um raio, a imagem do santo foi transportada monte abaixo até à nova capela construída no centro da povoação de Teiras. Diz ainda a lenda que a dita imagem, durante muito tempo e por vontade própria, se escapulia durante a noite para o local onde outrora se erguia a sua capela, teimando em não ficar na nova capela do Espírito-Santo onde reiteradamente a colocariam.

Com fachadas brancas a condizer com o apelo à simplicidade que o culto do Espírito-Santo obriga, a capela apresenta uma só nave, também ela de aspecto singelo, e um único óculo colocado sobre a porta principal, deixando uma nota de luz no seu interior. O sino, colocado num suporte simples de pedra calcária, completa o conjunto, dando um carácter airoso ao enquadramento simbólico deste espaço sagrado.

São Martinho e o Espírito Santo


Na memória colectiva associada a este espaço, numa linha de continuidade que assenta numa profunda sabedoria popular, possivelmente de tradição oral e que se perpectua ao longo de várias gerações, existe uma forte ligação aos cultos ancestrais que outrora foram desenvolvidos no velho castro.



Se a devoção actual ao Espírito-Santo, numa lógica de Quinto Império Sebastianista, apela ao desapego material, reiterando a máxima de que a Portugalidade exige despojamento das vestes sujas pelas agruras da vida para que seja possível vestir os trajes iluminados de uma existência situada em planos etéreos muito superiores, por outro lado, a devoção ancestral a São Martinho, o tal santo cujo mal-estar por estar colocado na nova capela é por demais  evidente, aponta também ela para uma ritualística de pobreza que, dadas as condições naturais do local onde estes monumentos se encontram, parece ter sido a pedra angular as muitas vidas que por aqui se sucederam ao longo de muitos séculos.

Diz a lenda de São Martinho que, sendo ele soldado romano em trânsito por uma estrada gelada numa das imensas serranias do império, terá sido interpelado por um paupérrimo pedinte que, transido de frio, lhe pediu ajuda para sobreviver ao Inverno. O Santo, sem pensar duas vezes, despiu as suas vestes e colocou-as sobre o corpo do desgraçado, ficando ele próprio sujeitos às inclemências do tempo. Mas Deus, reconhecendo o gesto nobre daquele soldado, terá mudado a estação e recriado uns dias de calor estival, dando assim condições a São Martinho para poder regressar são e salvo à sua terra.

É esta a origem do denominado “Verão de São Martinho”, bem como do quadro geral de despojamento que caracteriza o culto do Espírito Santo na capela de Teira.