quinta-feira

O Comércio Tradicional e a Dinâmica Urbana de Cascais





Marcado por um percurso histórico semelhante àquele que traduziu o desenvolvimento urbano da localidade, o comércio cascalense foi, durante mais de seis séculos, um dos mais representativos repositórios da capacidade e do empreendimento dos munícipes de Cascais.

Totalmente dependente das oscilações conjunturais, bem como dos ciclos sempre repetidos e das variações estruturais do País, o comércio dito tradicional apresenta um modelo de penetração no espaço que está em permanente dependência das condições de vida das populações.

O que isto quer dizer, em termos da existência prática desta actividade, é que a prosperidade ou o declínio do comércio tradicional, ao contrário do que acontece com outras actividades, depende mais das condições que estrutural e urbanisticamente lhe são oferecidas do que da sua própria vontade e capacidade de existir. Ou seja, o comerciante resulta do meio que o envolve, e as suas características intrínsecas são, assim, o melhor espelho da sociedade do seu tempo.

Por tudo isto, e no que a Cascais diz respeito, parece difícil determinar com rigor e exactidão aquele que foi o devir histórico do comércio local.

Por um lado, no decorrer do período que vai desde 1364 até 1870, ou seja, desde a subida à condição de município autónomo de Sintra, até à chegada da Corte, Cascais é um território que de caracteriza por uma oscilação permanente nas suas estruturas político-sociais e, consequentemente, também nas suas principais actividades.

A Vila Piscatória dessas épocas, marcada sobretudo pela sua relação de proximidade ao mar e a tudo o que a ele diz respeito, era também uma espécie de guarda avançada de Lisboa, aqui se mantendo, sempre com características diferentes em virtude da época ou épocas a que nos reportamos, uma série de aquartelamentos que trazem exigências próprias à povoação e à sua população. Por outro lado, era também o ponto de chegada de uma série de produtores agrícolas e hortícolas que, oriundos do termo rural do Concelho ou até de outros concelhos dos arredores, aqui vinham vender, trocar e exportar para Lisboa grande parte da sua produção.

A um tempo, Cascais é porto de pesca, com indústrias relacionadas com essa indústria e com o pescado comprovadas pelos menos desde a época romana e, simultaneamente, espaço de instalação de contigentes militares. Por outro lado, é também cabeça de um fértil território de génese rural que utiliza os seus areais e as condições ímpares da sua Baía como ponto privilegiado para despacho de produtos para a Capital.

Esta pluralidade de vocações, cada qual com as suas características, exigências e expectativas é assim o principal cenário que nos permite compreender a sua actividade comercial que, mais do que o resultado dos decretos e da legislação Nacional, se pautava pela vontade e, mais ainda, pela necessidade de responder às necessidades da comunidade aqui sedeada.

Por tudo isso, e sobretudo porque a linearidade processual está sempre afastada da actividade comercial, o comércio cascalense entre 1364 e 1870 é o resultado directo da conjugação entre as forças produtivas de Cascais e do seu termo, a pesca e a agricultura, e as necessidades de fornecimento de bens às forças militares ou militarizadas existentes no seu território.

Por outro lado, e embora com carácter incipiente, há a registar ainda uma influência positiva exercida como consequência do seu posicionamento estratégico durante a epopeia marítima portuguesa, pois era aqui que as naus e demais embarcações envolvidas nos processos comerciais de além mar, faziam a aguada depois de saírem de Lisboa e antes de enveredarem pelas difíceis rotas oceânicas. Como é evidente, o fornecimento das últimas parcelas de víveres frescos e de água potável fazia-se em Cascais, e nada mais óbvio do que partir do princípio de que esses produtos resultavam das actividades agrícolas locais.

Assim, e a título de conclusão provisória, é lícito afirmar que durante o período em questão, o comércio de Cascais se caracterizou sobretudo pela sua extrema dependência em relação à política nacional. Os períodos de maior instabilidade, com o aumento dos contingentes militares sediados em Cascais, fazia aumentar as necessidades de fornecimento de víveres e dos demais apoios. Logo, fazia aumentar também as expectativas comerciais locais. Os períodos de maior estabilidade, significando um decréscimo do número de tropas aqui sediadas e, logo, uma diminuição substancial da procura comercial, traduziram-se em menor pujança do comércio local.

Durante os anos de maior actividade de descoberta e de comércio internacional, esse dependência esbateu-se um pouco, mercê da já referida relação existente com a aguada dos navios, e com a assumpção do papel de guarda avançada de Lisboa. Apesar de tudo, implicações de carácter legislativo que impediam carregamentos e descarregamentos fora do Porto de Lisboa, foram surgindo amiúde, o que comprometia o fluxo de mercadorias e a prática comercial nos portos circundantes e, nomeadamente, também no de Cascais.

Embora não existam fontes documentais que comprovem directamente e com exactidão estas asserções, existem vestígios de outra índole que asseguram indirectamente o quadro que acabámos de traçar.

Em termos urbanísticos, por exemplo, é visível a enorme dependência que existe entre o crescimento de Cascais e as necessidades de fornecimento à Capital e aos contigentes militares aqui estacionados. Os períodos de mais conturbação são precisamente aqueles em que se regista um maior fulgor construtivo; e, em contrapartida, os de maior pacificação, são aqueles que se traduzem em Cascais por uma estagnação construtiva acrescida (1).

Com significante incidência na taxa populacional de Cascais, que oscilou sempre ao sabor das vicissitudes políticas Nacionais, o comércio local caracterizou-se quase sempre pela sua génese eminentemente rural. As principais actividades comerciais que existiam em Cascais eram, durante este longo período, aquelas que se prendiam com o acesso aos bens essenciais, ou sejam, a compra e venda de produtos alimentares e, de forma complementar, os serviços associados a uma existência urbana. Os alfaiates, tanoeiros, barbeiros e sapateiros, partilhavam a clientela com serviços relacionados com a construção e a reabilitação de construções. De pedreiros a ladrilhadores, passando por calceteiros, carpinteiros e demais profissões relacionadas com este sector, Cascais possuiu sempre uma panóplia de oferta comercial e de serviços que lhe permitiu manter-se como um local bem provido de tudo aquilo que era essencial à vida quotidiana dos seus habitantes.

No entanto, e apesar de tudo, a sua extrema dependência em relação a flutuações conjunturais externas, aliada à grande proximidade relativamente a Realeza Sintrã, e à Capitalidade de Lisboa, que se afiguravam como atractivos fundamentais ao estabelecimento de eventuais novos promotores comerciais, fez com que Cascais se mantivesse sempre como uma pequena Vila Piscatória, sem grande relevo na zona envolvente.

Quando em 1364, o Rei D. Pedro I concedeu Foral a Cascais, libertando assim esta Vila do jugo administrativo de Sintra, verifica-se que existe um especial cuidado na defesa dos interesses dos produtores locais. Para além dos pescadores, que tiveram uma palavra importante na determinação das prerrogativas de que iria gozar o novo Concelho, também os produtores agrícolas e hortícolas beneficiaram de importantes isenções fiscais e de benefícios que promoveram a produção interna.

Por outro lado, é também digna de uma nota especial, a atenção particular que o Foral atribuído a Cascais dispensa às restantes produções que, nessa época longínqua, podem ser consideradas como a génese da actividade comercial. Desde as louças até ao gado, passando pelos escravos, pela cal, pela pedra, pela cera, pelo mel, pelos metais e pelos tecidos, o Foral Cascalense atribui incentivos que, embora semelhantes àqueles que são oferecidos a outros municípios que recebem a sua carta na mesma época, denotam um cuidado especial na promoção das actividades que enquadram a actividade comercial.

Pode por isso dizer-se, sem sombra de dúvida, que o embrião do comércio cascalense pode encontrar-se nos primórdios da sua municipalidade, usufruindo dos benefícios e das regalias constantes na sua Carta de Foral. Apesar de a produção e a compra e venda de produtos se ter mantido sem grandes transformações até ao último quartel do Século XIX, o que é natural se pensarmos que o comércio depende sempre das condições urbanas, sociais e comunitárias do espaço em que se insere, não deixou de ter sempre uma sólida posição no contexto económico e financeiro da Vila de Cascais.

Mas todo este quadro mudou drasticamente a partir de 1870.

Com a chegada da Corte durante o período final do estio, vieram para Cascais uma série de famílias de renome Nacional que transformaram a Vila numa das mais apelativas estâncias de veraneio de Portugal.

A instalação deste novo contigente populacional, inicialmente de carácter muito precário, mas progressivamente cada vez mais evidente, alterou radicalmente os equilíbrios comerciais de Cascais, trazendo novas exigências de qualidade e de diversidade, mas também um mercado muito mais amplo que tornou mais apelativo o estabelecimento na Vila (2).

É neste período áureo, aliás, que Cascais se assume como povoação de vanguarda no contexto Nacional, pois foram aqui inauguradas uma série de novidades que, mais do que popularizar esta Vila como destino de excepção, vão trazer para o burgo um cunho de modernidade e progresso que a transformam num espaço privilegiado para o empreendedorismo comercial.

Esta transformação, visível também ela no conjunto edificado da Vila de Cascais, que numa primeira fase somente se adaptou de uma forma parcial para receber os novos habitantes durante dois ou três meses por ano, e só posteriormente assistiu ao surgimento de novos edifícios e espaços que traduziam o investimento em habitações condignas por parte das mais importantes famílias do Reino, teve implicações drásticas em todo o edifício económico e financeiro do Concelho.

Por um lado, dentro da Vila de Cascais, surgiu um enorme conjunto de estabelecimentos comerciais e de prestadores de serviços que procurava dar resposta ao aumento da procura que resultou do crescimento significativo da população. Por outro, na generalidade dos espaços rurais do território concelhio, assistiu-se ao florescimento da actividade agrícola e hortícola pois, ao contrário do que acontecia até aí, a criação de um mercado pujante situado no centro da própria Vila, acabou por facilitar o escoamento dos produtos e o consequente aumento do lucro (3).

Apesar de não existirem dados efectivos que permitam aferir numericamente este aumento de actividade comercial, uma vez que muitos dos empreendimentos surgidos aparecem também de forma algo volátil como extensões de firmas e de sociedades constituídas em Lisboa que vão dando os primeiros passos de um processo longo de estabelecimento no Concelho de Cascais (4), o aumento do investimento no nosso Concelho foi fulgurante e contribuiu para uma alteração profunda nos costumes, nos hábitos e na estruturação social da Vila e do seu termo.

No conjunto das actividades comerciais que mais cresceram na Vila de Cascais no período que se situa entre 1870 e 1910, merece uma referência especial o ramo relacionado com a construção e as obras.

De facto, num espaço urbano em evidente crescimento, no qual assumia primordial importância a capacidade de oferecer condições de alojamento que estivessem de acordo com a relevância social dos novos habitantes cascalenses, os estabelecimentos que forneciam material ligado a essa indústria conheceram tempos de grande pujança e crescimento.

É de notar que, no período subsequente, ou seja, no período mais conturbado que caracterizou o início da primeira república e que representou um momento de declínio para Cascais, são precisamente os comerciantes relacionados com este ramo que melhores condições possuem para ultrapassar a crise e para se manter em funcionamento a nível local. Nessa época, na qual instituições variadas procuraram criar condições e incentivos que permitissem ao comércio local prosperar, são precisamente estes comerciantes quem prepara as melhores montras e quem dá mostras de maior longevidade (5). São também eles que demonstram possuir um espírito mais empreendedor e inovador e, consequentemente, uma maior capacidade de investimento nos seus negócios em Cascais, conforme se pode deduzir dos dados existentes (6).

Depois de implantação da república, com o consequente afastamento da Corte da Vila de Cascais, alteram-se novamente as condições de prosperidade e desenvolvimento que vigoravam desde 1870.

A precariedade política que caracterizou o País, extensível ao conjunto de decisões controversas e, tantas vezes contraditórias, que os principais responsáveis pelo Concelho de Cascais iam tomando (7), transformou o comércio e a generalidade das actividades a ele inerentes em profissão de elevado risco, o que implicou uma regressão do investimento que se fez nesta Vila e Concelho (8).

Esta situação foi, no entanto, muito transitória, uma vez que devido à intervenção directa de uma série de personalidades que assumem os destinos de Cascais, se assiste ao início de um novo período de investimento e desenvolvimento logo a partir de 1921. É a partir deste ano que, num esgar de reconhecido empenho pelo desenvolvimento do País, Cascais assiste à assumpção do turismo como a grande vocação municipal.

Com a criação das Comissões de Iniciativa e Turismo, que procuravam encontrar junto da sociedade civil as condições económico-financeiras que permitissem ultrapassar os insolúveis problemas orçamentais do Estado, Cascais passou a usufruir das condições necessárias ao início de um novo período de próspero desenvolvimento.

Nomes como os de Fausto Cardoso de Figueiredo ou José Florindo de Oliveira, para além de muitos outros que desempenharam papéis de relevo em todo o Século XX cascalense, foram aproveitando as condições deixadas no Cascais da Corte e, rentabilizando-as, recriaram a vocação turística municipal.

Ao longo de quase todo o Século XX, por iniciativa da Comissão de Propaganda de Cascais, realizaram-se inúmeros concursos e festivais que procuravam promover o comércio local e, simultaneamente, dotá-lo de condições de competitividade.

É nesta época que se assiste ao sucesso dos concursos de montras, exposições de lenços, festivais de flores, saraus de propaganda, etc. Desse período de florescimento e progresso resultaram evidentes benefícios para o comércio cascalense.
O aumento da procura, e o acentuado crescimento da população, assumiram-se como óptimas condições para o restabelecimento das condições de vida e, consequentemente, para a efectivação dos investimentos necessários à tão desejada prosperidade.

Cascais foi-se tornando, de uma forma paulatina, num local de excepção, onde se passaram a encontrar os artigos de excepção que chegavam a Portugal. Uma povoação onde, a partir da Segunda Guerra Mundial, passaram a residir as principais famílias da aristocracia europeia, que aqui se reuniram às grandes figuras Nacionais, e na qual se conjugavam condições climáticas e paisagísticas ímpares, transformando-se num dos principais mercados comerciais de Portugal.

É deste período de ouro, que se prolongou desde a década de 20 até quase ao final do Século, que resulta o fascínio, o ‘glamour’, o prestígio e a tradição comercial de Cascais.

Durante todos estes anos, nos quais Cascais se assumiu como uma das mais emblemáticas Vilas Portuguesas, o comércio local consolidou-se, cresceu e prosperou, beneficiando das condições ímpares que lhe oferecia o Concelho e da conjuntura favorável que envolveu a povoação.

Nesta época, para além de uma crescente autonomia em relação a Lisboa, pois em Cascais existia quase tudo o que era necessário ao dia-a-dia daqueles que cá habitavam, a instalação das melhores marcas e produtos a nível mundial foi transformando a Vila num espaço também privilegiado comercialmente.

Não era raro, nesta época de fascínio cascalense, encontrar famílias lisboetas e de outras partes do País que vinham “às compras a Cascais”. Aqui encontravam as marcas, os produtos e a qualidade comercial que não existia nos seus locais de residência.

Depois, com a crescente urbanização; com a massificação; com a proliferação das grandes superfícies incaracterísticas; com a falta de condições ambientais; com problemas graves de identidade social; e com uma progressiva descaracterização paisagística, Cascais foi perdendo a qualidade desses tempos.

Hoje, mercê do nome e da fama que granjeou durante esses anos de fulgor, Cascais ainda pode retornar à senda do sucesso (9).








(1)Henriques, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997;
(2)AMORIM, Diogo Pacheco de, e HENRIQUES, João Aníbal, Urbanismo & Comércio, Cascais, Fundação Cascais, 2002;
(3)Ver nota (1);
(4)Ver dados aprofundado em ANDRADE, Ferreira de, “Monografia de Cascais”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964;
(5)HENRIQUES, João Aníbal, Propaganda – Sete Décadas de Promoção de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais e Sociedade Propaganda de Cascais, no prelo.
(6)HENRIQUES, João Miguel, Cascais – Do Final da Monarquia ao Alvorecer da República (1908-1914), Cascais, Edições Colibri e C.M.C., 2001;
(7)HENRIQUES, João Aníbal, O Estoril e a Paróquia de Santo António, Cascais, Fundação Cascais, 1999;
(8)ANDRADE, Ferreira de, Cascais Vila da Corte, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964.
(9)Ver nota (2).

quarta-feira

Os Ferreiras do Vale de Alcântara




O Presidente da ALA - Academia de Letras e Artes, Professor Doutor António de Sousa Lara, em parceria com Vasco Quintanilha Fernandes, publicou mais um importante trabalho de investigação genealógica que desvenda o devir da família Ferreira e, através dela, o dealbar da revolução industrial na região de Lisboa. Intitulado "Os Ferreiras do Vale de Alcântara e as Suas Alianças", o livro ajuda a perceber a importância do Vale do Tejo como cenário de afirmação de uma burguesia empreendedora e moderna que, dando forma à criação de laços de sangue com as famílias tradicionais do Portugal de então, deu origem à estrutura social que marcou a história recente do nosso País.

segunda-feira

A Capela do Livramento




Situada estrategicamente no centro da povoação do Livramento, muito próximo das entradas principais de algumas das maiores e mais produtivas quintas do concelho de Cascais, a Capela do Livramento é uma construção do final do século XVIII, como acontece, mercê da grande destruição provocada pelo terramoto de 1755, com a quase totalidade dos edifícios de culto do território de Cascais.

Muito embora não seja possível determinar com exactidão a data da primitiva edificação, pode dizer-se com alguma certeza que ela seria, certamente, muito antiga. A manutenção das estruturas simbólicas e religiosas das populações proto-cascalense, bem como a continuidade verificada em quase todas as áreas durante os períodos mais conturbados de transformação política, permite supor um certo carácter sagrado a quase todos os terrenos hoje ocupados por templos de culto católico.

Esta situação, que à partida parece pressupor a existência de rituais comuns a todas estas diferentes religiões, fica a dever-se, no entanto, às características de adaptabilidade que acompanham a vida da cristandade desde os seus primeiros anos de existência. De facto, quando se fala em culto católico, fala-se também numa congregação geral de muitas expressões religiosas anteriores que, com o objectivo de homogeneizar a vivência espiritual das populações, preparando-as para uma melhor aceitação das novas ideologias, promoveu o encontro de culturas e formas de ser.

A Capela do Livramento, exemplo muito positivo da forma como o património pode espelhar os resquícios meio apagados do devir histórico, representa actualmente um ponto de união para as populações envolventes, demonstrando também, e até à exaustão, a importância que possui a existência de um núcleo histórico bem consolidado na manutenção e desenvolvimento das relações de vizinhança. Estas por sua vez, tendem a facilitar a dignificação da instituição familiar que, por seu turno, promove o arreigado apego ao meio e à terra, factor condicionante da melhoria da qualidade de vida das populações.

As linhas simples da fachada deste edifício, bem como a forma exemplar como se encontra preservado, tornam-no num pólo aglomerador da população envolvente, que ali se encontra, aos fins de tarde e durante o fim-de-semana, para trocar impressões sobre os problemas do quotidiano. As diferentes gerações, ao contrário do que acontece na grande maioria das povoações cascalenses, possui um meio físico importante onde se pode reunir e trocar experiências.

Do ponto de vista plástico e arquitectónico, são de salientar, no adro da Capela do Livramento, um cruzeiro datado de 1757, bem como um conjunto bem preservado de um poço com bomba manual, peça importante na memória colectiva do Livramento, e que foi utilizado até quase à actualidade como elemento distribuidor de água para todo aquele espaço.

A planta rectangular do interior, a capela-mor abóbada e a passagem em arco de volta perfeita entre a capela e a capela-mor, permitem definir com rigor as datas da construção do templo. O chão de pedra e a balaustrada de madeira do coro, criam um ambiente de requintada simplicidade, coadjuvado, como é óbvio, pela ambiência criada pelas pequenas janelas colocadas em longo de todo o corpo principal.

As imagens da Virgem com o Menino, bem como as figuras imponentes de São Sebastião e de São José, completam um espólio artístico que, embora pobre, dignifica, pela forma como está preservado, a memória colectiva do Livramento, e o património cultural do concelho de Cascais.

Quando Servir Portugal era um Dever e Não uma Obrigação...

sexta-feira